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A crise de Moraes chega à eleição de Pernambuco

Pernambuco, embora geograficamente distante, não está politicamente isolado

Redação Portal DPE

04 de set de 2026

A crise de Moraes chega à eleição de Pernambuco

A política brasileira vive mais uma daquelas semanas em que Brasília parece pequena demais para a crise. Alexandre de Moraes voltou ao centro do furacão. Desta vez, não só pelos inquéritos das fake news ou pelas decisões sobre redes sociais, mas pelas mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

O relatório da Polícia Federal, com sigilo retirado pelo ministro André Mendonça, mostra diálogos em que Vorcaro pede intervenção do ministro junto à PF e à PGR, pergunta se deveria deixar o país e trata de pagamentos ao escritório da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes. A PGR, no entanto, pediu a nulidade do relatório, alegando que Mendonça excedeu suas competências ao determinar investigações sobre um colega sem provocação do Ministério Público. O assunto está longe de encerrado.

Pernambuco, embora geograficamente distante, não está politicamente isolado. Em fevereiro, Alexandre de Moraes foi um dos convidados do casamento de João Campos e Tabata Amaral na Praia dos Carneiros. Ao lado dele estava o então presidente em exercício Geraldo Alckmin. A imagem circulou e agora volta à cena.

Nada disso prova irregularidade entre o ministro e o candidato do PSB. Seria irresponsável afirmar o contrário sem evidências. Mas eleição não se decide só com provas judiciais. Decide-se também com símbolos, percepções e narrativas. É aí que mora o risco para João Campos.

A disputa apertou — e pode nacionalizar

A eleição para o governo de Pernambuco deixou de ser caminhada. A Quaest de fim de agosto colocou Raquel Lyra com 44% contra 36% de João Campos no primeiro turno. No segundo turno, 47% a 37%. O Datafolha de agosto mostrou 47% a 40%. Outros levantamentos apontam diferença menor, mas o quadro mudou: a disputa está competitiva.

Nesse cenário, o caso Moraes pode entrar na campanha não porque o ministro seja candidato, mas porque a eleição tende a virar disputa de narrativas nacionais. O eleitor pernambucano pode ser chamado a escolher não só entre João e Raquel, mas entre visões sobre o Supremo, o governo Lula, Bolsonaro, liberdade de expressão e o papel das instituições. João Campos, presidente nacional do PSB, aliado de Lula e marido de Tabata Amaral, corre o risco de ser colocado no meio desse debate.

A oposição certamente enxergará potencial na fotografia de Carneiros. A pergunta que pode circular nas redes é simples: “De que lado João Campos está?” É pergunta política, não jurídica. Para os aliados, a resposta também é direta: convidado de casamento não é aliança política nem endosso a decisões judiciais. Os dois lados vão explorar a história.

O verdadeiro problema para João Campos

O maior risco para o candidato do PSB não é Alexandre de Moraes em si. É a eleição pernambucana deixar de ser discutida sobre Pernambuco. João precisa falar de saúde, segurança, educação, água, emprego e desenvolvimento. Precisa convencer o eleitor de que está pronto para governar o Estado.

Raquel Lyra tem interesse em transformar a disputa em plebiscito sobre a gestão estadual e, ao mesmo tempo, nacionalizar o que puder prejudicar o adversário. Se o caso Moraes ganhar força negativa nas próximas semanas, será difícil impedir que entre na campanha. O desafio de João será não deixar uma crise institucional de Brasília virar crise eleitoral em Pernambuco.

A eleição ainda está aberta

Não se pode considerar a eleição decidida. Pesquisas mostram movimentos diferentes e ainda há jogo pela frente. Mas uma coisa mudou: a disputa pernambucana ganhou temperatura nacional. Quanto mais nacionalizada ficar, maior o peso de temas que estão fora das fronteiras do Estado. Alexandre de Moraes é um desses temas.

O ministro não estará na urna de Pernambuco. Sua imagem, porém, pode estar. Assim como a fotografia do casamento. Em eleição apertada, às vezes uma imagem vale mais politicamente do que mil discursos.

Pernambuco vai escolher o próximo governador discutindo os problemas do Estado ou será arrastado para a guerra política que se trava em Brasília?


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