Lula e Homer Simpson com algo em comum
Um governante responsável assume a autoria das leis que sanciona. Jogar a culpa no ministro revela ou falta de comando (deixa o ministro decidir sozinho em temas sensíveis), ou falta de caráter (não assume erros).
Redação Portal DPE
29 de mai de 2026

Lula na entrevista ao "Sem Censura" e a tentativa de culpar Haddad.
Na entrevista ao programa Sem Censura (TV Brasil, 22 de maio de 2026), Lula da Silva comentou a revogação da chamada "taxa das blusinhas" (imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress). Ele transferiu a responsabilidade principal para o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Lula disse:
- Haddad "acreditava realmente que era uma coisa boa" e defendeu a medida "com convicção" para proteger a indústria e o varejo nacional.
- Havia "muita pressão dos varejistas de São Paulo e Rio de Janeiro".
- Lula mencionou ter sido alertado pela primeira-dama Janja, se for verdade isso mesmo, sobre o impacto negativo, especialmente para consumidores de menor renda.
Ele apresentou a medida como algo que Haddad "fez" e que ele próprio aceitou, mas agora revogava por MP, zerando o imposto federal (mantendo apenas ICMS estadual).
Contexto de fato da taxa:
- A taxação foi aprovada pelo Congresso Nacional (dentro do projeto Mover e compensações tributárias).
- Lula sancionou a lei em junho de 2024 (Lei 14.902/2024), tornando-a vigente.
- Cobrança começou em agosto de 2024.
- Em maio de 2026 (próximo das eleições), Lula assinou MP revogando a parte federal do imposto.
Haddad, por sua vez, afirmou em entrevistas anteriores que Lula sempre foi contra a taxa e que "corrigiu o rumo" ao revogá-la, cedendo a pressões políticas.
Comparação com Homer Simpson ("A culpa é minha e eu boto em quem eu quiser")
A frase atribuída ao Homer Simpson captura bem o tom de transferência de culpa. Lula assumiu a sanção (ato presidencial obrigatório para lei aprovada), mas publicamente atribui a autoria e convicção a Haddad quando a medida se tornou impopular. Isso é um clássico blame shifting político: o presidente aparece como corretor de um erro alheio, apesar de ter o poder de veto ou de não sancionar.
Diferenças e semelhanças:
- Homer: Comédia fictícia, irresponsabilidade pessoal (trabalha na usina nuclear, causa acidentes e nega).
- Lula aqui: Presidente da República com poder real de decisão. Assinar uma lei tem consequências diretas sobre milhões de brasileiros. Não é desenho animado — afeta preços, consumo, arrecadação e emprego.
Se a culpa é de Haddad, Lula demonstra incapacidade de governar?
Sim, essa linha de defesa expõe um problema sério de liderança:
1. Falta de avaliação de consequências: Um presidente deve medir impactos antes de sancionar. A taxa elevou o custo final de produtos baratos (ex.: uma blusinha ficava em média R$ 48 mais cara em alguns casos), afetando especialmente consumidores de baixa renda que usam importados acessíveis. O desgaste foi previsível — redes sociais e oposição exploraram isso imediatamente.
2. Assinatura sem convicção própria: Se Lula realmente achava ruim (como disse depois), por que sancionou? Um líder capaz rejeita ou modifica medidas com alto custo político e social baixo benefício (arrecadação foi modesta comparada ao desgaste). Ele priorizou pressão de varejistas e Congresso em 2024, depois reverteu por conveniência eleitoral em 2026.
3. Prejuízo aos brasileiros:
- Consumidores pagaram mais caro por perto de 1 ano e 9 meses.
- Pequenos importadores e famílias de renda média/baixo tiveram consumo restringido.
- Indústria/varejo nacional ganhou proteção temporária, mas sem resolver problemas estruturais (custo Brasil, produtividade).
- Governo criou um problema (imposto novo impopular) e agora se apresenta como solucionador, típica tática eleitoreira.
Um governante responsável assume a autoria das leis que sanciona. Jogar a culpa no ministro revela ou falta de comando (deixa o ministro decidir sozinho em temas sensíveis), ou falta de caráter (não assume erros). Em ambos os casos, enfraquece a narrativa de um presidente experiente e "pai dos pobres".
Essa não é a primeira vez que Lula distancia-se de decisões impopulares do próprio governo. O padrão sugere governança reativa, guiada por pesquisa de opinião e pressão, em vez de planejamento consistente. A "taxa das blusinhas" virou símbolo de erro evitável que encareceu a vida de quem menos pode.
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